Y2K em 2022: culto à magreza extrema na era virtual intensifica os distúrbios alimentares e de imagem
As tendências do começo do século XXI retornam e encontram espaço nas redes sociais para divulgar o ideal da magreza como sinônimo de sucesso e negar a pluralidade de corpos
Por: Beatrice Magalhães
O movimento Y2K – sigla para “year 2000”, do inglês ano 2000 – resgata a estética do início do século XXI. As comunidades da geração Z e millenial revisitaram essas tendências durante a pandemia numa corrente saudosista, disseminando e popularizando tal retorno nas redes sociais.

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Contudo, o ressurgimento da moda dos anos 2000 traz consigo um padrão estético excludente de enaltecimento à magreza extrema, reforçando a busca pela falsa “perfeição” e romantizando os distúrbios alimentares.
No TikTok, plataforma de vídeos curtos, a hashtag “Y2K” possui quase 11 bilhões de visualizações. Nesse espaço, os usuários celebram a estética e propõem alternativas de como aproveitar das peças e acessórios pertencentes à tendência. Esse movimento surge no começo da pandemia e se estende até então.
De acordo com a própria rede social, tanto os produtores de conteúdo quanto os consumidores estão em média na faixa dos 16 aos 24 anos. Além disso, segundo pesquisa do BusinessOfApps, plataforma de análise e de coleta de dados sobre o mercado de aplicativos, cerca de 59% dos usuários do TikTok são mulheres.
Isto significa que um público feminino muito jovem, que normalmente ainda está construindo suas próprias opiniões e convicções, tem acesso a um universo vasto, e muitas vezes sem filtro, de informações.
Nesse momento, a divulgação de “corpos virtuais” – corpos editados e com filtros para “enganar” a comunidade digital – reforça a comparação estética já existente na “vida real”.
Anos 2000 e o enaltecimento do corpo magro
Figuras como Paris Hilton, Britney Spears, Cristina Aguilera, Jennifer Lopez e as componentes do grupo musical Destiny’s Child eram as celebridades referências quanto ao estilo que adotavam em suas aparições publicas.
Essas mulheres se tornaram símbolos da moda daquele momento e até hoje estão numa posição de inspiração do movimento Y2K.
Diante de tamanho sucesso, é possível localizar dentre elas uma semelhança crucial: um corpo extremamente magro.

Componentes do Grupo Destiny’s Child: Kelly Rowland, Beyoncé e Michelle Williams, respectivamente // Foto: Getty Images

Nesse momento, a divulgação de “corpos virtuais” – corpos editados e com filtros para “enganar” a comunidade digital – reforça a comparação estética já existente na “vida real”.
Nos anos 2000, o padrão estético enaltecido e validado era de uma estrutura física magra, assim, todas as tendências de vestimenta reforçavam e buscavam valorizar esses traços.
Paris Hilton // Foto: Getty Images
Para além desse favorecimento, a sociedade e a grande mídia propagavam um ideal de que a magreza era sinônimo de beleza, saúde, sucesso e felicidade.
Isso era facilitado através do cinema e da TV, com personagens como Regina George, de “Meninas Malvadas”, por exemplo – filme, justamente, para um público infanto-juvenil.
Luiza Alves, jovem de 23 anos, estudante de odontologia e apaixonada por moda e estilo de vida, acredita que além do conceito de um padrão de beleza disseminado pela mídia, a realidade não problematizada da impossibilidade de alcançar esse corpo considerado perfeito afetou meninas de sua geração na forma de lidar com a própria imagem.
Apesar de pertencerem ao grupo seleto de corpos não gordos, ainda assim, não eram “magras o suficiente” para se encaixar no que era visto como ideal. “A gente podia estar magra como fosse que na época a gente se considerava gorda e que precisava emagrecer mais”, confessa Alves.
Magreza do Y2K em 2022
Em 2022, contraposto à tendência da última década de corpos mais curvilíneos – seios fartos, glúteos volumosos, quadris largos e cintura fina – liderada pela família de influenciadoras Kardashian-Jenner, as figuras públicas voltam a adotar um físico bem mais magro, similar ao começo do século XXI.

Família Kardashian-Jenner // Foto: Divulgação Oficial Star+
Discute-se sobre a periodicidade do universo fashion, que vive um ciclo de 20 anos do auge de um estilo para retornar futuramente com um movimento vintage.
Daiana Alves, figurinista e stylish de 26 anos, acredita que, apesar da moda ser cíclica, cada vez será mais difícil prever tendências. “Esse formato vem se modificando cada vez mais à medida que as novas mídias e a as novas gerações vem consumindo conteúdos diversos e em ritmos acelerados”, explica.
A profissional da moda relata ter receio de que se transforme em um “grande liquidificador de referências”.
Contudo, não se imaginava que esse conceito poderia ser aplicado aos corpos. A fluidez e radicalidade da mudança dos padrões de beleza nos últimos tempos tem sido um tópico polêmico.
A comunidade de celebridades está à disposição para alterar drasticamente os formatos dos seus corpos para seguir o que está em alta, isto é, tratando o próprio corpo como um “acessório” que pode ser alterado a cada tendência.
Inclusive, o exemplo mais claro desse processo vem diretamente da família que norteou a estética da década de 2010.
Comparação padrão corporal anos 2000 X 2020
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Lindsay Lohan em 2008// Foto: Hedi Slimane
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Kylie Jenner em 2022// Foto: Reprodução Instagram
Kim Kardashian recentemente vem chamando atenção pelo emagrecimento rápido e expressivo, além da retirada de próteses nos seios e nos glúteos.
Desde maio em entrevista no tapete vermelho do MET Gala, na qual contou ter perdido cerca de dezesseis pounds – equivalente a sete quilos – em apenas três semanas para caber no vestido de Marilyn Monroe que usou no evento, Kim tem sido alvo de críticas.
Para além dessa revelação, a socialite expõe explicitamente os métodos de como teria alcançado esse resultado.
Diante disso, abriu-se o espaço para a discussão do perigo de se instigar na mídia a adoção de dietas restritivas e a responsabilidade das figuras públicas nisso.
“Acredito que quando você é uma pessoa pública, as pessoas se inspiram em você e que uma parte do seu marketing pessoal é relacionado ao seu corpo você tem responsabilidade do que faz com ele também”, comenta Luiza Alves sobre o comprometimento da Kim Kardashian com a intensificação da pressão estética.

“Querendo ou não, ela é uma pessoa que vende um estilo de vida e que as pessoas se inspiram nela e nesse estilo de vida”, completa.
O tratamento do próprio corpo como um “acessório” estimulado pelas figuras da mídia quando encontram ambientes para públicos jovens acabam por promover, consequentemente, gatilhos para transtornos alimentares e de imagem.
Comparação antes e depois Kim Kardashian // Foto: Reprodução Twitter
No TikTok e no Instagram, por exemplo, a comparação entre belezas e corpos ocorre entre usuários de todas as idades. Entretanto, o público mais jovem normalmente com pouco discernimento sobre tal problema e suscetível à manipulação virtual é o mais afetado.
Daiana Alves comenta que há anos os profissionais de moda tentam modificar o conceito de corpos como acessório estimulado pela indústria, justamente pela relação com distúrbios alimentares. “Eu quero dizer que não existe esse enaltecimento, mas essa coisa de buscar referencia e tendências do passado às vezes é preocupante”, observa.
Alves também menciona sobre a moda da sua adolescência, o “heroin chic”, e sua apreensão com um possível retorno.
Também conhecida atualmente como a estética Tumblr, por conta do seu retorno nos anos 2010, o “heroin chic” surgiu originalmente na década de 90 e remonta o visual de uma pessoa comprometida pelo uso de heroína: cabelos oleosos, olheiras profundas e pele pálida. Ou seja, um aspecto adoecido.
“Foi uma época que enaltecia muito magreza, anorexia, bulimia”, relata a figurinista.

Modelo Gia Carang, percursora do "heroin chic" // Foto: Reprodução Twitter
De acordo com a OMS, 4,7% dos brasileiros sofrem com algum distúrbio alimentar. Entre adolescentes esse número cresce para 10%.
Posto isso, o culto à magreza excessiva pode retornar com ainda mais força na atualidade e promover resultados ainda mais graves dos já vistos anteriormente.
Tendências da década 2000 e a pluralidade
A estética no começo dos anos 2000 divide opiniões: há quem ame e quem odeie.
Para Luiza Alves, apreciadora amadora do universo fashion, a moda daquela época é “feia, brega e excludente”. “É um estilo que valoriza a cintura baixa para mostrar um corpo ‘perfeito’ que não existe”, exemplifica.
Contudo, em seu ressurgimento vinte anos depois possibilita combinar essas tendências à nova visão plural sobre corpos femininos e a diversidade.
Na opinião da stylish Daiana Alves, a moda “é para ser diversão, expressão e isso não deve se limitar a um corpo só”. Para tanto, é possível adaptar o Y2K ao mundo de 2022.

Modelo plus size Holly Marston // Foto: Reprodução Instagram
“A melhor forma para isso é apostar em releituras e em modelagens mais modernas, mas que trazem referências dessa moda dos anos 2000, mais irreverente, de divas pop. É muito divertido, com muitas cores, muitos recortes”, completa.