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Beleza Ilusória

O inatingível padrão de beleza e suas interfaces

Por: Maria Clara Oberlaender

A beleza é um conceito fluido e manipulável, entretanto a definição de um padrão estético afeta e aprisiona mulheres de diferentes faixas etárias e culturas há séculos, moldando-se aos desejos e valores de cada período histórico.

A criação de um parâmetro do que é considerado belo torna-se um problema a partir do momento em que pressiona e oprime a comunidade feminina, resultando em consequências psicológicas e emocionais pela busca incessante pela “perfeição”.

Desde muito antes da Grécia Antiga, os seres humanos já apreciavam e admiravam o “belo”. Durante esse período, esse conceito era atrelado a equilíbrio e simetria, justamente por conta da evolução artística e principalmente por conta da descoberta da proporção áurea.

Mas a concepção da beleza varia de acordo com a sociedade e com o tempo. Um grande exemplo é durante a segunda fase do romantismo, no qual uma mulher encantadora seria pálida, com aspecto fúnebre, de forma idealizada e irreal.

“Pálida, à luz da lâmpada sombria,

Sobre o leito de flores reclinada,

Como a lua por noite embalsamada,

Entre as nuvens do amor ela dormia!" [...]

Trecho retirado do poema “Soneto” de Álvares de Azevedo

Entretanto, a associação entre padrão de beleza e perfeição vai muito além desse momento. Ela perpassa o renascimento e chega até os dias atuais.

Mas o que seria esse padrão?

O que é padrão?

A palavra padrão surge do latim patronus, significando “modelo a ser seguido”. Mas pode existir um modelo de corpo, rosto e beleza?

Essa é uma das grandes controvérsias do conceito de padronização, afinal todas as mulheres são diferentes e não deveria existir um “certo e errado” a respeito da estética. Infelizmente, ele existe e afeta o público feminino de diversas faixas etárias e de diversas culturas.

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Mas assim como o padrão muda de acordo com a cultura, o tempo modifica ele também. Como já mencionado, o conceito de beleza durante a Grécia Antiga não é o mesmo que durante a segunda fase do Romantismo. Outra grande mudança é o Renascimento Cultural que traz à tona essa discussão, já que retoma com a proporção áurea em suas obras.

Linha do Tempo

Retrospectiva da beleza: a história dos padrões ao longo das décadas

Sobre a chamada proporção áurea, ou número de Deus, a doutora em comunicação social e professora universitária da disciplina Arte, Cultura e Estética nos cursos de jornalismo e publicidade e propaganda) da UNIFACS, Vanessa Brasil, explica:

“A proporção áurea é importante porque ela dá um valor à geometria. Surgiu na Grécia Antiga com os Pitagóricos, que descobriram que tudo no universo tinha uma proporção. Desde o surgimento das conchas, das plantas e, inclusive, do corpo humano”.

“Durante o Renascimento Italiano descobriram que essas proporções eram agradáveis ao ser humano. A gente gosta de ver coisas simétricas", completa.

A beleza simétrica, por sua vez, é um dos conceitos que se manteve com o passar do anos. A professora livre-docente de História da Arte da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Maria de Fátima, em entrevista para a Revista Elle Brasil afirma: 

“A simetria é usada para criar equilíbrio na tela, mesmo que o corpo esteja contorcido. Essas proporções, que foram feitas pelo homem, criam uma visão idealizada do que seja o corpo humano”.

Padrão Inalcançável 

O padrão de beleza atual é criado para que seja inatingível. 

Hoje, perpetuado pelo capitalismo e pela indústria de cosméticos, traz conceitos que já deviam ser extintos - a exemplo da magreza como sinônimo de saúde e felicidade. 

Contudo, como esse padrão tem fases, mesmo uma mulher que alcance uma estética denominada "aceitável", ainda assim não se sente bem com o próprio corpo, já que as características do padrão já foram alteradas. 

Vanessa reflete sobre o assunto: “esse padrão existe e é cada vez mais momentâneo, hoje em dia é quase instantâneo e não tem a durabilidade que tinha no passado.”

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Um conceito que pode ser usado para explicar esse fenômeno é o da “Sociedade do Espetáculo”, criado por Guy Debord:

A realidade ficcional que é veiculada pelos meios de comunicação passa a se sobrepor à realidade efetiva, organizando a vida individual e em sociedade em torno dos valores ditados pela sociedade do consumo.

Isto é, o conceito ilusório e irreal da beleza disseminado pela mídia ultrapassa a noção verdadeira sobre a imagem da mulher e a pluralidade do belo.

Como o padrão afeta as mulheres?

Representatividade na infância

Tanto meninas, quanto mulheres idosas são impactadas pela padronização de diferentes formas.

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Seja na infância com a imposição de “menina princesinha comportada” ou com a falta de representatividade nos desenhos infantis. 

Durante a idade adulta, com a exigência de estar dentro do padrão para se sentir bem consigo mesma e até para conseguir uma vaga de emprego. Quanto à terceira idade, são as mais afetadas, principalmente por conta do etarismo.

Representatividade na infância: beleza feminina do cinema e a influência na mentalidade infantil

O que é etarismo?

De acordo com o dicionário online de português, etarismo significa:

"Discriminação ou preconceito em razão da idade, nomeadamente aversão a população mais velha ou à própria velhice".

Esse desprezo está estritamente ligado à estética. Apesar de que naturalmente com o passar dos anos as pessoas adquirem rugas, marcas de expressão, flacidez e cabelos brancos, há uma repulsa a essas novas características e a pressão de continuar com a aparência jovial.

No entanto, essa imposição é mais incisiva sobre a comunidade feminina, coagida a condenar os traços do envelhecimento e seguir ao padrão “forever young” - do inglês “para sempre jovem”.

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Maquia e fala: conversamos com duas mulheres sobre padrão “Forever Young” e autoestima na terceira idade

Tal exigência posta às mulheres, não afeta apenas às pessoas “comuns” e desconhecidas, mas também perturba muitas celebridades.

A atriz Judy Garland, por exemplo, desde muito nova sofria abusos psicológicos da sua mãe para mantê-la esteticamente similar ao padrão das mulheres influentes da época.

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Para além da violência já sofrida, após assinar o contrato com o estúdio de cinema e TV Metro Golden Mayer e engravidar, foi coagida pela empresa a realizar um aborto para que mantivesse seu “ar infantil”. 

Outra figura pública que comenta abertamente sobre o “body shaming” - termo em inglês para o ato de ridicularizar, zombar ou criticar a aparência física de uma pessoa - sofrido é a atriz, cantora e dançarina Claudia Raia.

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Claudia é criticada por continuar aos 55 anos atuando ativamente no âmbito artístico da mesma forma de quando era mais jovem. 

Em entrevista ao site O Fuxico, a artista afirma:

“Minha vontade é sempre me sentir bem. Não tenho intenção nenhuma de aparentar uma idade que eu não tenho. Sou muito feliz vendo o que vejo ao me olhar no espelho.”

Nascida em Capinas, interior de São Paulo, em 1966 numa família de descendentes italianos, a atriz, cantora, apresentadora e produtora teatral é considerada...

Leia o perfil:

Diversidade das Mulheres

Mesmo que exista um padrão em teoria, na prática o que chama atenção é a diversidade dos corpos. Recentemente, a internet se movimentou com a discussão sobre os formatos corporais - retangular, oval, ampulheta, triângulo e triângulo invertido.

Entretanto, a indústria têxtil não acompanha essas diferenças, já que se tornou comum uma mulher comprar uma peça de roupa e depois ter que ajustar parte dela.

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Outro setor que interfere nessa padronização é a indústria da moda, que mesmo sendo mais inclusiva nos dias atuais, por muito tempo foi segregadora e amplificou o ideal de magreza extrema à beleza. 

Milene Barbosa, modelo baiana de 21 anos, comenta sobre:

“Com a autoestima, sabendo quem você é, sabendo que pode evoluir, que pode ir muito mais além sendo você mesma, é super importante para ir tranquilamente nessa área, sem deixar com que essas coisas te influenciam a não se aceitar”.

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Os efeitos do padrão

Toda a pressão sofrida relacionada à auto imagem tem consequências, sejam elas perceptíveis ou não tanto.

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Episódio 01
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Para entender melhor sobre esses números, conversamos com a psicóloga Ana Paula Pereira, especialista em mulheres.

Episódio 02
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Ao mesmo tempo que os efeitos psicológicos afetam a população feminina, existe também outro tópico alarmante: o súbito aumento dos procedimentos estéticos, especialmente, das cirurgias plásticas. Hoje em dia é comum ver pessoas operando mais de uma vez o mesmo local, sem mencionar a onda de harmonização facial que atinge os famosos.

“A cirurgia plástica existe para deixar todo mundo dentro desse padrão, mesmo quem não nasce ‘tão perfeito’, acaba ficando. Porque as cirurgias plásticas estão a serviço dessa beleza estereotipada", comenta a professora Vanessa Brasil.

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A pluralidade do belo

Por mais que o padrão seja um conceito utópico, a auto aceitação não é.

E esses dois não poderiam estar menos entrelaçados, já que enquanto um constantemente é alterado após uma mudança da sociedade, o outro depende exclusivamente de você.

Se sentir bem com o próprio corpo não é uma tarefa fácil, já que desde de a infância se é ensinado a ser e aparentar de uma forma, mas um conceito tão antiquado quanto de querer colocar as mulheres “dentro de uma caixa” já devia ser extinto.

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Uma das maiores filósofas do século XX, Simone de Beauvoir, também uma das mais conhecidas ícones feministas, afirma:

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“Que nada nos defina, que nada nos sujeite.

Que a liberdade seja a nossa própria substância, já que viver é ser livre.”

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Depoimentos

Informações coletas no nosso perfil do Instagram @belezailusoria

 

Você se sente satisfeita com seu corpo?

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Você se sente confiante ao usar um biquini?

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Você costuma seguir influenciadoras que fazem muitos procedimentos estéticos?

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Você se sente pressionada a seguir um padrão estético?

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"Graças a minha família eu construí minha identidade e minha autoestima que são inabalavéis"

"Sempre tento fugir dessa ideia de perfeição, mas acabo muitas vezes tendo recaídas e me inferiorizando"

"Me afeta de diferentes intensidades a depender das pessoas ao meu redor"

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